Um início fora do padrão de Invencível
Contrariando os padrões de Invencível, o quarto episódio nos recebe com tédio e falta de propósito. E talvez seja justamente aí que o problema comece a aparecer. Após três episódios bastante consistentes, nos é entregue um material que há muito já era comentado por Robert Kirkman como um interesse pessoal, um desejo que não ganhou vida nos quadrinhos, mas que, através de uma nova mídia, pôde finalmente ser concebido. Kirkman sempre foi muito claro quanto à sua vontade de criar um arco de Invencível que se passasse no inferno, algo bastante comum em HQs de super-heróis.

Mark e o conflito interno do protagonista
O episódio inicia com Mark procurando Art, o alfaiate, a fim de afogar as mágoas, buscando um ombro amigo. Mark comenta e demonstra clareza e autoconsciência acerca de suas últimas atitudes. O protagonista expõe seu receio em tornar-se cada vez mais parecido com seu pai, obrigando Art a lembrá-lo de quem ele é. “Sabe quem nunca veio aqui preocupado em estar errando?”.
Infelizmente, o diálogo entre os dois não se estende tanto e logo somos direcionados para o arco principal do episódio.

O arco do inferno em Invencível: filler ou desperdício?
O inferno é apresentado junto a uma batalha entre personagens que até então não conhecemos, com exceção de Damien Darkblood, personagem de destaque na primeira temporada. Damien e seu clã enfrentam uma personagem autodenominada Volcanikka, que detém o título de liderança do inferno. O clã Darkblood é completamente humilhado e trucidado no combate, sendo forçado a recuar até seu líder, Satã.
Satã e Damien reconhecem sua inferioridade, muito porque Satã está sem sua coroa e, consequentemente, sem seus poderes. Desesperados, Damien realiza um ritual de invocação, almejando trazer Omni-Man para seu lado, mas acaba sendo surpreendido com a presença de seu filho.
Mark os ajuda, recuperando a coroa e participando do confronto final contra a regente do reino inferior. Honestamente, talvez seja o episódio mais fraco da série. Ele funciona como um filler dentro de Invencível, criando uma barreira na narrativa, já que não avança a história, o que faz sentido considerando que esse arco não consta na obra original. O problema é que, aqui, o episódio parece maltratado. Lutas que gostaríamos de ver não aparecem, outras que geram expectativa decepcionam. As piadas não encontram timing, muitas vezes pecando pelo excesso, e os próprios designs não chamam atenção. É um episódio que exige paciência até o seu término.
Entretanto, para aqueles que resistem, a recompensa é válida. Eve, no instante em que revela sua gravidez para Mark, é surpreendida, assim como nós, ao perceber que seu sogro, Nolan, os observa e convoca o filho para a guerra.
Já no episódio 5, após as trivialidades sociais e um breve diálogo entre Nolan e Mark, Omni-Man precisa encarar seu passado e vai ao encontro de Debbie. A conversa entre os dois é densa, pesada e carregada de ambiguidade. Nolan, emocionalmente imaturo, se mostra honesto e tenta, à sua maneira, retomar a vida que tinham. Debbie, por outro lado, traz a maturidade necessária e escancara o que ele ainda não consegue compreender: ele não destruiu apenas uma cidade, mas tudo o que ela enxergava nele.

Omni-Man e as consequências de seus atos
Contrariado, Omni-Man sai decepcionado e desolado e vai em busca de Art, seu velho amigo. O que fica evidente nessa interação é a frustração constante de Nolan. Sua imaturidade não permite compreender que um pedido de desculpas não é suficiente e que, ainda que isso já seja difícil para ele, não significa nada para aqueles cujas vidas foram arruinadas.
Entre despedidas, lamúrias e momentos em família, a trama avança ao reunir seus personagens e iniciar a jornada rumo à guerra. Oliver, que acompanha Mark, está chateado e magoado com seu pai, que não demonstrou interesse em vê-lo. Quando se encontram na nave, o clima é distante. Oliver é um filho que busca um pai, enquanto Nolan é um pai que não sabe mais como ocupar esse lugar. Um procura, enquanto o outro evita.

A guerra se aproxima em Invencível
Omni-Man é, de longe, um dos personagens mais interessantes de Invencível, com uma complexidade emocional e psicológica que, em alguns momentos, se destaca do restante da série. A montagem e a rima visual, estabelecendo um paralelo entre o jantar em família na casa de Debbie e o jantar na nave, evidenciando a desolação de Nolan, revelam uma sensibilidade artística notável. Em uma temporada que promete um ritmo mais acelerado, com menos espaço para esse tipo de sutileza, Robert Kirkman demonstra entender quando desacelerar para aprofundar seus personagens.
Posteriormente, a nave é atacada, revelando a presença de Viltrumitas, incluindo um aguardado Conquista, disposto a enfrentar Mark. A batalha se inicia no espaço, o que reduz a sensação de impacto dos golpes e torna o confronto um pouco menos intenso. Ainda assim, para aqueles que esperavam mais visceralidade, o episódio entrega.
Oliver não consegue mais segurar a respiração, e seu pai aponta um planeta próximo para que ele possa se recuperar. Conquista o segue, determinado a finalizar o combate. Mark vai logo atrás, decidido a salvar o irmão, e faz uma promessa: “Você nunca mais vai respirar”.
Violência, impacto e o verdadeiro núcleo da série
A partir daí, somos levados a uma das sequências mais brutais e viscerais da série. Mark cumpre sua promessa, mas a um custo alto, colocando sua própria vida em risco. Nolan e Oliver o encontram, mas as consequências desse confronto ficam para os próximos episódios.
No fim, talvez esses dois episódios resumam bem os extremos de Invencível. Quando se afasta demais do seu centro, a série perde força, ritmo e impacto. Quando retorna aos seus personagens, aos seus dilemas e à violência como consequência, e não só espetáculo, ela volta a encontrar o que tem de melhor.





