Entre culpa, escolhas e limites cada vez mais frágeis, a série original do Prime Video empurra seu protagonista para um lugar mais perigoso.

Seguindo o padrão de produções originais da Amazon, a quarta temporada de Invencível chegou nesta última quarta (18) com três episódios bastante interessantes. Após os acontecimentos finais da temporada anterior, já era de se esperar uma mudança bastante significativa não só com Mark, mas também com a própria trama. Abrimos a temporada com um Mark totalmente impactado e traumatizado pelos acontecimentos recentes, fazendo com que o protagonista seja guiado por um caminho cada vez mais nebuloso.

Post Invencible - Primeiro Parágrafo
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O trauma de Mark e a introdução de Dinosaurus


A temporada inicia num contexto melancólico e enlutado. O primeiro episódio começa mostrando personagens e pessoas comuns dando continuidade às suas rotinas, ainda que isso soe falso. A partir da montagem inicial, percebemos que Mark, aparentemente, não está lidando bem com as toneladas de culpa que carrega, e sua super força, nesse contexto, não tem utilidade. Mark, acima de tudo, como já indicado no final da última temporada, está se tornando mais fatalista, quase matando um novo vilão apresentado nesta temporada: Dinosaurus.

Essa sequência, por outro lado, também evidencia um problema muito antigo de Invencível, algo que, para uma produção do tamanho da série, já se torna difícil de ignorar. Mais uma vez, a animação apresenta inconsistências que destoam da qualidade da narrativa. Salvo alguns episódios específicos, como o icônico final da terceira temporada, esse sempre foi um ponto fraco da série, que nunca chegou a comprometer sua força narrativa, mas talvez ainda a impeça de alcançar um outro patamar dentro dos debates.

No geral, o primeiro episódio é bem dinâmico, já apresentando as consequências da última temporada e preparando o terreno para novas possibilidades. Mark, no final do episódio, acaba com as suspeitas e preocupações de todos — tanto do público quanto dos próprios personagens — relacionadas às suas novas formas de agir ao matar o líder dos Sequids. Essa cena final, aliada à fuga de Conquista no pós-crédito, faz com que seja quase automático partir para o próximo episódio.

E é justamente a partir daí que a temporada cresce.

Post Invencible - "E é justamente"
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O Império Viltrumita e o dilema de Nolan e Allen the Alien


No segundo episódio, focado em Nolan (Omni-Man) e Allen the Alien, temos, de longe, o mais forte entre os três, além de um dos melhores arcos recentes da série. Logo no início, somos apresentados a um acontecimento importante do passado do Império Viltrumita, um ataque bioterrorista que ajuda a expandir a compreensão sobre aquela sociedade. O episódio é hábil em não humanizar excessivamente os alienígenas, ainda que seja impossível não sentir um certo desconforto diante de todo o sofrimento apresentado.

Seguimos acompanhando Nolan e Allen em busca de itens para a produção de armas contra os Viltrumitas. A dinâmica entre os dois funciona muito bem, com bastante ação, momentos de humor (por vezes até em excesso) e um dilema central que atravessa Nolan. Ele se esconde atrás da ideia de que apenas ajudará na busca pelos recursos, mas não participará diretamente da guerra. Essa posição, que inicialmente parece firme, começa a ruir quando Nolan descobre que Thaedus, líder da revolução e primeiro Viltrumita a se rebelar, foi o responsável pelo genocídio.

A partir desse momento, sua postura se fragiliza. Ainda que esteja lidando com uma raça marcada por violência e expansionismo, aquela ainda é sua origem, sua história, suas lembranças. Surge então um dos conflitos mais interessantes do episódio: como lidar com a possibilidade de ser responsável pela extinção da própria raça? Esse tipo de dilema é o que eleva Invencível. Desde as temporadas anteriores, a série constrói seus personagens em zonas cinzentas, se afastando de uma leitura simplista de "bem contra mal" e se aproximando de conflitos mais complexos.


A invasão Flaxan e a revelação de Eve Atômica


No terceiro episódio, há uma queda de ritmo, o que, considerando a intensidade dos anteriores, não chega a ser um problema. Ainda é um episódio intenso, mas mais contido e focado em um arco lateral, dessa vez centrado no personagem Titã. Mais uma vez, o personagem se vê em uma situação desesperadora, cercado por reviravoltas e traições, tentando salvar sua família. Esse tipo de construção pode causar certo cansaço pela repetição do conflito, mas Invencível costuma saber utilizar esses núcleos paralelos para acrescentar novas camadas à narrativa.

Nesse caso, isso aparece principalmente no desenvolvimento da relação entre Mark e Oliver Grayson, que havia começado estremecida no primeiro episódio.

O conflito principal gira em torno de uma nova invasão dos Flaxans, agora muito mais preparados, inclusive para enfrentar o Omni-Man, responsável por praticamente dizimar seu planeta no último encontro. A batalha é intensa, bem construída e funciona como espetáculo, além de abrir espaço para um possível novo arco envolvendo Menina Monstro e Rex Splode.

Post Invencible - "O conflito principal gira em torno"
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Entretanto, o momento mais impactante do episódio está em seu pós-crédito: Eve Atômica e Mark Grayson estão esperando um filho. É um desfecho que reorganiza completamente o peso das decisões que ainda virão.

No geral, Invencível mantém sua qualidade em praticamente todos os seus pilares. A narrativa segue forte, os personagens continuam cativantes e os conflitos permanecem envolventes. No fim, a questão já não parece ser sobre o que Mark vai enfrentar, mas sobre até onde ele está disposto a ir.